EXTENSÃO

Identidade Nacional

O presente projeto de extensão objetiva fornecer elementos críticos e reflexivos para a análise em sala de aula sobre o mito da identidade nacional. Até que ponto as disparidades regionais e sociais podem ser suplantadas por uma narrativa que nos una enquanto povo? Tradicionalmente adotamos a narrativa cultural segundo a qual independente de classe, gênero e região, o brasileiro e a brasileira possuem uma cordialidade inata. Somos espontâneos, receptivos, abertos, emotivos. Essa ideia entra em choque, entretanto, com a realidade de disparidades sociais gritantes que anulam a ideia de cordialidade. A vida de um jovem da periferia dos centros urbanos é totalmente diferente da de um jovem da classe média. Há uma disparidade também entre as expectativas de vida de um jovem negro e as de um jovem branco, pois a pobreza tem cor no Brasil. O desemprego, a violência e a marginalidade afetam majoritariamente a população negra e parda. As mulheres sofrem violência de gênero em uma cultura que valoriza um modelo de feminilidade dócil e passivo em contraposição a uma masculinidade agressiva e ativa. A população LGBTI vive sob o risco constante de ataques homofóbicos. Por que essas violências são naturalizadas e seus perpetuadores continuam agindo?

Nossa hipótese é a de que o combate às violências de raça, classe e gênero passa por uma revisão de nossa matriz cultural. Precisamos problematizar as bases sob as quais foram construídas a ideia de democracia racial brasileira e o mito da unidade nacional do caráter cordial. A cordialidade enquanto traço da identidade nacional oculta as raízes violentas sob as quais o país foi ‘construído’. O passado colonial brasileiro é marcado pela escravidão e o extermínio dos povos indígenas, pela exclusão da mulher da esfera pública. Enquanto não problematizarmos essa exclusão histórica e reconhecermos os seus efeitos no Brasil contemporâneo não conseguiremos construir uma narrativa sobre a identidade nacional que contemple a todos.

Partindo da ideia de que o mito da identidade nacional oficial oculta a noção de que o padrão cultural paradigmático é o europeu, branco, homem, rico e heterossexual, o curso problematizará a ausência de cada uma das identidades excluídas deste paradigma, a mulher, o negro, o indígena, a população LGBTI, o pobre, das narrativas difundidas pelos meios de comunicação de massa, novelas, artigos de jornais, propaganda. A análise crítica discursiva dessas imagens e narrativas televisivas nos permitirá mostrar de que maneira elas reiterariam estereótipos: a hipersexualização da mulher negra, a docilidade das mulheres brasileiras, a infantilidade do índio, entre outros. Essa estereotipação é acompanhada pela total ausência de outros modelos identitários. A soma da estereotipação e da exclusão produzem violências éticas, pois corroboram para a marginalização dos que não são retratados nessas narrativas.

Darcy Ribeiro dizia que podemos criar uma outra narrativa sobre a identidade nacional, uma narrativa que não tenha como modelo a identidade européia hegemônica, mas que valorize positivamente o entrecruzamento de raças e culturas.
Almejamos ao final produzir elementos que nos permitam apontar para uma narrativa nova, não excludente, mas que respeite as diferenças. Para tal acreditamos ser importante um ponto de partida filosófico que leve em conta a importância da ética das emoções. Novos discursos e narrativas televisivas edificantes, que difundam uma identidade nacional que positive as diferenças necessitam de narrativas que produzam efeitos retóricos persuasivos através de emoções inclusivas, como, por exemplo, a compaixão.